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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ouviram ou não ouviram do Ipiranga?


O Hino Nacional, o patriotismo e as datas cívicas sumiram da escola. Aproveite este Sete de Setembro para tratar do assunto.

Hora cívica na Ministro Marcos Freire: crianças cantam o hino toda semana. Foto: Maurício Barbante
Hora cívica na Ministro Marcos Freire: crianças cantam o hino toda semana. Foto: Maurício Barbante
A cena ao lado é repetida toda semana: os alunos da Escola Municipal Ministro Marcos Freire, em Cuiabá, em Mato Grosso, reúnem-se no pátio, perfilam-se e cantam o Hino Nacional. "É dever da escola ensinar a reverência aos símbolos nacionais", diz a diretora, Elka Cardoso Oliveira.

Há uns vinte anos, essa seria uma verdade absoluta. Mas já não é bem assim. Em algumas escolas, cantar o hino e comemorar as datas cívicas são atos suspeitos de ter parentesco com aquele mau nacionalismo da ditadura militar (1964-1985). Para outras, a idéia de que somos uma nação é tão abstrata que o civismo não tem sentido para os alunos.
Em um ponto todos concordam: a maior parte das escolas têm dificuldades em explicar aos seus alunos que país é este, que        deveres temos como brasileiros e o que é amar a terra em que nascemos.
A cidadania No próximo mês, dia 7, o Brasil completará 175 anos como país independente. A data é ótima para um debate com seus alunos sobre o que é a cidadania e como colocá-la em prática. Acompanhe um roteiro de atividades sugerido por uma educadora de Santa Luzia, MG.

A ressaca
Nos 21 anos em que durou, a ditadura militar usou os símbolos nacionais como se fossem dela. Era a época das prisões, dos exílios e do "Brasil: ame-o ou deixe-o". Doze anos depois, esses anos de chumbo ainda pesam na cabeça de muitos professores.

O hino 
Cantar o Hino Nacional sem entender o seu significado, como um papagaio, pouco vale. Uma professora de Português, em Recife, propõe que a turma mergulhe na letra do hino para compreender o que ela quer dizer e, de quebra, ter uma aula de gramática.
A nação só será etendida se for vista no dia-a-dia


Qual foi a última vez em que seus alunos cantaram o Hino Nacional? E a bandeira do Brasil, em que data foi hasteada? Em grande parte das escolas, o hino foi ouvido pela última vez em maio de 1994, executado por alunos emocionados com a morte do piloto brasileiro Ayrton Senna. No mesmo ano, a bandeira surgiu agitada pelos mesmos estudantes, agora entusiasmados com a Copa do Mundo dos Estados Unidos. E foi só.

É pouco, mas melhor do que nada. Se os símbolos brasileiros e a pátria ainda são lembrados em momentos de fortes emoções, pode-se partir daí para tratar o conceito de nação em classe. "Não vamos conseguir falar em nação com os alunos se não mostrarmos onde ela está no cotidiano", afirma Ghisleine Trigo, da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas da Secretaria de Educação de São Paulo (Cenp).

Encarregada de sugerir às escolas as melhores alternativas para encaminhar os conteúdos curriculares, a Cenp propõe que, já a partir da primeira série do primeiro grau, os professores comecem a falar de pátria, patriotismo e símbolos nacionais. "É a descoberta da identidade, pois o aluno trabalha com fotos da própria família, depois identifica seu bairro e vai ampliando o círculo dos grupos aos quais pertence e com os quais tem afinidades", explica.

No segundo grau, a idéia de que todos pertencem à mesma nação já estará, espera-se, presente nas cabeças dos alunos. "É o momento, então, de situarmos o Brasil diante das demais nações do mundo e compararmos nossas estruturas sociais."

Banho de cidadania 

A pedagoga Wadiswava Dominick também acredita que os estudantes só se sentirão parte integrante e interessada da nação brasileira se passarem, antes, por um banho de imersão nos princípios da cidadania. Diretora do Colégio Kramer, em Santa Luzia, na Grande Belo Horizonte, ela sugere atividades para alunos de quinta a oitava série que se estenderiam do início de agosto até a Semana da Independência, em setembro.

A proposta exige uma participação ativa do professor em sala de aula, pois a atividade é formada por debates e reflexões junto com a turma. "A idéia é fazer os alunos refletirem sobre o que vêem à sua volta", explica Wadiswava. "Quando percebem criticamente o mundo, as pessoas querem mudanças e, como nada pode ser feito individualmente, a necessidade de agir em sociedade para lutar pelo bem comum é facilmente compreendida."
Acompanhe a proposta da professora Wadiswava.

Baixa auto-estima  


É difícil respeitar um país quando se acha que tudo que existe no exterior é melhor
Você sabe, brasileiro é meio malandro, não quer trabalhar. Carros nacionais? Ih! Umas carroças! Nossa comida, nossas roupas, nossos pintores não chegam aos pés dos de lá de fora... Mas é isso mesmo? Você se mata de trabalhar, não? Nossos automóveis, livros e políticos são piores do que os dos outros? Por que um camembert é mais gostoso do que um queijo-de-minas?
Se neste país há mesmo algo pior do que nos demais, é a sua auto-estima. "Nossa tendência é achar que a beleza, a competência e a inteligência dos outros são sempre maiores do que as nossas", diz Roseli Fischmann, educadora que participou da elaboração do capítulo sobre Pluralidade Cultural nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN).

Há escolas que se empenham em mostrar do que é feito este país. "Os povos e as culturas que nos formaram estão vivos do nosso lado", diz a professora Márcia Moura, da Escola Estadual Carlos Rios, em Arcoverde, no sertão pernambucano. No início do ano, Márcia trouxe para a escola alguns índios da tribo dos xucurus. "Eles dançaram, falaram dos seus costumes e do preconceito que existe contra eles", lembra.

Os anos do milagre 


Nos anos 70, a ditadura usou o nacionalismo dos brasileiros para assegurar seu poder 
No dia 21 de junho de 1970, quando o Brasil ganhou de 4 a 1 da Itália, na Copa do México, milhões de brasileiros saíram às ruas para festejar o tricampeonato de futebol. A euforia, que se estenderia por quase toda a gestão do general Emílio Garrastazu Médici na presidência da república (1970-1974), foi habilmente explorada pelo governo. Martelavam-se bordões como "Milagre brasileiro", "Ninguém segura este país". Aos opositores, uma rude intimação: "Brasil: ame-o ou deixe-o".

Nessa época, a censura aos meios de comunicação foi mais implacável, a perseguição aos opositores políticos, mais cruel e o desprezo pelo Congresso e pelo Judiciário, maior do que em todos os 21 anos da ditadura. Mas os olhos só viam as lojas repletas de mercadorias e de crédito fácil.

Algumas escolas hasteavam diariamente a bandeira, crianças cantavam o hino em posição de sentido. Pareciam um quartel.
Logo, tudo mudou. Veio a crise do petróleo, faltou carne nos açougues... O sonho de grandeza virou ressaca.

Uma música com história


Tocado há 166 anos neste país, o hino já foi símbolo da monarquia e da república 
Independência ou Morte, Pedro Américo (1843-1905)
Independência ou Morte, Pedro Américo (1843-1905)
O compositor Francisco Manuel da Silva tocava violoncelo, violino, piano, órgão e tímpanos uma espécie de tambor. Seu parceiro, e autor da letra do hino, Joaquim Osório Duque Estrada, foi professor, crítico literário e poeta. Mas a dupla musical mais cantada do Brasil nunca se sentou na mesma mesa. Francisco morreu em 1865. Duque Estrada só nasceria cinco anos depois, em 1870.

Nos seus 166 anos, a melodia de Francisco, composta em 1831 por ocasião da abdicação de D. Pedro I, atravessou os terremotos da política. Teve letras diferentes, mas não perdeu um compasso sequer. Em 1890, foi declarada a sua morte: abriu-se um concurso para escolher um novo hino. Deodoro da Fonseca, primeiro presidente do Brasil, ouviu os concorrentes, mas decretou que a velha melodia continuava a melhor.
Em 1908, outro concurso. Agora queria-se uma letra republicana para o hino. Ganhou a de Duque Estrada, que celebrava a independência.
Fonte site: Nova Escola

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